domingo, 15 de julho de 2007

Como não ler uma fonte histórica

O tema dessa conversa veio ao meu encontro na semana passada. Estava em uma Missa e assisti a uma exibição explícita de como ignorar a historicidade de um texto. Giambattista Tiepolo, A expulsão de Agar (1719)Era a história de Agar e Ismael (Gênesis 21, 8-21). A Bíblia conta que, como Sara, sua esposa, não lhe dava filhos, Abraão deitou-se com uma escrava, Agar, e esta lhe deu um filho, Ismael. Anos depois, com o nascimento de seu filho legítimo, Isaac, Sara pediu que Abraão expulsasse o filho da escrava para que este não viesse a dividir sua herança. Abraão o fez, mas Deus salvou Agar e Ismael no deserto, prometendo-lhe fazer da criança "uma grande nação".

O padre que celebrava a Missa, em primeiro lugar, afirmou que Sara pediu a expulsão de Ismael porque este maltratava seu filho Isaac. O texto da Bíblia de Jerusalém (Gênesis 21, 9) diz explicitamente que ambos "brincavam", um jogo de palavras com o nome de Isaac (em hebraico, o verbo que dá origem a seu nome significa 'rir' ou 'brincar'). É no capítulo 16 (vv. 4-6) que o Gênesis afirma que Agar, grávida, olhava Sara com desprezo e esta passou a tratá-la mal. O padre mesclou duas passagens distintas para justificar a expulsão de Ismael (identificado na exegese cristã com a antiga tradição judaica, rejeitada). Depois, lembrando que as tradições judaica e islâmica consideram Ismael como o ancestral do povo árabe, o padre ainda afirmou que isso mostrava que a questão atual entre árabes e judeus não era uma questão política, mas sim religiosa. Como se israelenses e palestinos fossem crianças brincando.

Outro problema de interpretação foi quando o padre afirmou que a Bíblia não hierarquizava a relação entre homens e mulheres, pois a decisão de expulsar Agar partiu de Sara, e Abraão não fez mais do que o que sua mulher pedia. Para corroborar essa idéia, lembrou o trecho da Bíblia que narra a criação da mulher a partir de uma costela do homem. Disse o padre: "Deus não fez a mulher nem do pé, para ficar abaixo, nem da cabeça, para estar acima, mas da costela, para estar ao lado". Na verdade, o padre esqueceu de ler a passagem por inteiro. No Gênesis, Deus diz que "não é bom que o homem esteja só. Vou fazer uma auxiliar que lhe corresponda." (2, 18 grifo meu). É para auxiliar o homem que Deus faz surgir a mulher da costela de Adão (2, 21-22). Simplesmente não se pode, historicamente falando, ignorar essas afirmações e fazer uma interpretação pós-moderna da Bíblia.

Na verdade, essa conversa procura mostrar como é possível interpretar mal uma fonte histórica. Não se trata de uma particularidade da Bíblia. Em qualquer texto, é possível escolher trechos, citar passagens fora de contexto e sugerir idéias que são, muitas vezes, completamente rechaçadas em outros trechos do mesmo documento. Não me lembro quem foi que falou, mas é uma idéia brilhante: "até o Diabo pode citar as Escrituras para se defender".

3 comentários:

livia disse...

André essa discussão vai muito além de como não ler uma fonte histórica o padre ao afirma que a mulher foi feita da costela para não se subjugada ao homem esta contrariando a própria bíblia. Em gênesis 2:23 fala que a mulher foi feita da costela para ser parte dos seus ossos poderia ser feita de qualquer parte em nenhum momento na Bíblia Deus justifica a razão por que a costela?.
Só uma pergunta você questionou o padre a respeito do sermão?

André Leme Lopes disse...

Pois é, Lívia. A idéia é exatamente mostrar como é possível você ler um texto contrariando o próprio texto. Mas isso é uma coisa mais comum do que parece. O queijo e os vermes, do Ginzburg, fala um bocado disso.
Respondendo, eu não questionei o padre. Tenho certeza que ele conhece melhor a Bíblia do que eu e a gente estaria discutindo até hoje. :)

Anônimo disse...

a biblia é uma fonte historica?