terça-feira, 10 de julho de 2007

Como criar um fato histórico

Após uma inesperada pausa, voltamos à nossa programação normal...

A conversa anterior rendeu alguns comentários interessantes. Afinal de contas, ela toca diversos temas bastante complicados para a história. Um deles é a própria questão dos eventos, comumente chamados de "fatos históricos". Podemos discutir suas causas e conseqüências, detalhes, números, mas não podemos ignorar que os eventos ocorreram, não é? Apesar de não sabermos quantas pessoas vieram, nada pode mudar o fato de que a família real veio ao Brasil, certo?

Depende. Essas coisas aconteceram, mas, como eu já disse antes, "e daí?". Pessoas vão e vem todos os dias. A pergunta correta é: "por que a vinda da família real para o Brasil em 1808 tornou-se especial e ganhou o status de um fato histórico?" Resposta: porque ela é parte de uma trama, de uma explicação: a vinda da família real explica a independência do Brasil.

Aliás, a própria independência é um bom exemplo de como os fatos históricos são criados. Por que o 'grito do Ipiranga' faz parte da história canônica da nossa independência e a batalha naval de Salvador (4 de maio de 1823) não faz? Foi nessa batalha que um mercenário inglês contratado em Buenos Aires por José Bonifácio derrotou a armada portuguesa enviada para combater as forças do império brasileiro. Graças a essa vitória, as forças leais a Portugal tiveram que abandonar Salvador e entregaram a cidade ao império pouco menos de dois meses depois (alguém já se perguntou porque o aeroporto dessa cidade chamava-se 2 de julho?). Esses eventos foram escondidos da história da independência do Brasil porque era necessário mostrar o Brasil como um país uno, que já existia antes do 7 de setembro. Para criar esse Brasil uno, que nunca existira, era necessária uma independência consensual de todo o território brasileiro (para mais detalhes dessa história não-oficial da criação do Brasil, recomendo o livro Brazil, the forging of a nation, 1798-1852, de Roderick J. Barman).

Isso acontece com todos os fatos históricos. Eles não são nada mais nada menos do que 'episódios dramáticos' nas 'tramas narrativas' da história. Talvez o melhor exemplo seja a guerra do Peloponeso. Tucídides contou algumas batalhas entre atenienses e espartanos e chamou seu conjunto de "guerra dos atenienses e peloponésios". As batalhas entre as duas cidades começaram antes da data escolhida por Tucídides e ambas continuaram a lutar entre si e com as outras cidades da Grécia depois da destruição dos muros de Atenas, mas a narrativa do historiador ateniense é tão completa e sua autoridade é tão forte que até hoje separamos aquelas batalhas das outras e as chamamos de guerra do Peloponeso.

Os eventos ocorreram, ok. Mas quem dá significado a eles e os transforma em 'acontecimentos históricos' são os escritores de histórias. Como disse uma vez o romancista inglês Samuel Butler, "Deus não pode alterar o passado, mas os historiadores podem".

2 comentários:

Renato disse...

Seguindo seu raciocínio fico pensando o quanto a história oficial acaba “escondendo” deixando uma de muitas visões da história. Seja por motivos didáticos ou políticos (não creio que algum almirante bata no peito orgulhoso em dizer que a primeira batalha de nossa marinha foi vencida sob comando de um inglês). Imagino o quanto essa tentativa de síntese ao mesmo tempo que oferece uma visão mais simples reduz a multidimensionalidade do que entendemos como história. Como no exemplo da independência do Brasil que é um processo com muito mais aspectos e eventos que um simbólico grito do Ipiranga. Poderiam entender que a independência a um processo que começou em 1808?

livia disse...

Os anais são construidos pela alteridade de quem narra os fatos, para tanto legitima os paradigmas de acordo com os seus interesses alguns fatos são acultados pois não favoreceram a trama a história e como um romance.